Falar sobre gênero é cada vez mais necessário – mesmo com o “escola sem partido” dizendo que não

Texto de Renata Aquino

Publicado originalmente aqui, em 24/10/2015

Dia 23 de outubro de 2015, continua a repercussão nas redes sociais dos vários tweets e comentários na rede facebook de cunho sexual sobre a menina Valentina, de 12 anos, participante do Master Chef Jr. Páginas de órgãos do governo federal postam imagens conscientizando sobre pedofilia, quando começar a suspeitar e como denunciar. A organização feminista Think Olga, responsável pela ótima campanha do ano passado “Chega de Fiu-Fiu” que trouxe para a cena pública o necessário debate sobre cantadas de rua, usou a repercussão para incentivar mulheres a falar sobre #primeiroassedio que sofreram: para a surpresa de ninguém que tenha alguma leitura sobre a cultura do estupro, 12 anos é a idade média onde mulheres começam a ser assediadas. Vários blogs feministas assim como sites jornalísticos simpatizantes do movimento feminista publicaram textos de opinião tratando do assunto.

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Fomos nós, feministas, que conseguimos mostrar o que há nesse caso de problema da sociedade como um todo justamente porque analisamos as coisas sob um recorte de gênero. A percepção da cultura do estupro como um problema é uma conquista do movimento feminista possibilitado pelo uso do gênero como categoria de análise da realidade. Realidade é um termo-chave aqui. Uma das acusações mais injustas que recebemos é a aparente falta de objetividade e materialidade em nossos discursos. “Patriarcado”, “opressão” e “cultura do estupro” aparentemente carecem de embasamento para serem levados à sério por certas pessoas. Mas mesmo quando essas questões são comprovadas com estatísticas e depoimentos diversos, elas ainda são desvalorizadas. Ou pior, elas são condenadas como conspirações malígnas. A estranha popularização do termo feminazi ilustra essa tendência. Ele foi popularizado pelo político e escritor Rush Limbaugh, membro do Tea Party, a facção mais conservadora e extremada do Partido Republicano norte-americano. Limbaugh acusava diversos movimentos e instituições feministas de conspirarem contra os valores tradicionais e familiares da sociedade norte-americana para a sua destruição. Vale dizer, dentre outras coisas, as opiniões de Limbaugh e de todo o Tea Party também tratam de negar a existência do Aquecimento Global. Porém, apesar da procedência de qualidade duvidosa, feminazi virou o principal jargão daqueles que não entendem de feminismo para falar de feminismo. “Essas feminazis ficam procurando problema onde não existe”. “Agora não dá pra falar nem fazer piada com mais nada por causa dessas feminazis”. “Elas precisam mesmo é de um homem de verdade e uma foda bem dada pra parar de reclamar”.

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Mas nesses últimos dias, todos tiveram que se deparar com a dura realidade que o caso de Valentina descortinou para o mundo. Logo depois, a tag #primeiroassedio reforçou o que é assustador de tão óbvio: Valentina é uma de muitas, centenas, milhares, milhões de mulheres, que, pelo simples fato de serem mulheres, transformam-se em alvos para aquilo que há de pior e mais escuro no interior das pessoas. Talvez todas essas questões que a teoria feminista vem levantando todo esse tempo não seja besteira. Talvez “cultura de estupro” não seja algo que devamos levar como uma piada, mas pensar em como ela nos afeta ou em como ajudamos a perpetuá-la. Talvez, apesar de certa insistência em pensar o contrário, o problema realmente exista. E o que fazemos quanto a isso agora? Ué, levamos o debate adiante; para dentro de nossas casas, para as salas de aula, para a conversa com os amigos, para nossa Igreja. Se o feminismo é essa ferramenta tão importante para conseguir fazer a gente perceber o problema, então precisamos colocar essa ferramenta para funcionar no máximo de espaços possíveis, certo? Bem, para alguns isso não parece tão óbvio.

No dia 23 de outubro, Miguel Nagib, representante do movimento Escola Sem Partido, posta em sua página uma “notícia antiga, mas atualíssima”, publicada no próprio site do ESP com o título “Professor é flagrado acariciando aluna em sala de aula. O caso teve repercussão no ano de 2013, quando um professor da rede estadual de ensino de São Paulo foi flagrado em vídeo dentro de sala de aula abusando de uma aluna de 11 anos. Na publicação do ESP, esse caso é associado com a “crescente erotização das salas de aula, promovida pelo MEC e secretarias de educação, em aberta violação ao direito dos pais e à liberdade de consciência dos alunos”. Ou seja, casos como esses acontecem por causa do trabalho com questões de gênero e sexualidade nos currículos escolares (!). Discutir sobre gênero significaria forçar estudantes a uma sexualização precoce e relações abusivas com professores.

Fonte

Fica a dúvida sobre qual é a ideia de pessoas como Nagib sobre tais questões? Será que para ele e os demais adeptos à mensagem do ESP essa é só outra parte da conspiração de professores doutrinadores para se infiltrarem nas mentes e corpos de alunos indefesos? A coisa parece um pouco pior que isso.

Parágrafo único. O Poder Público não se imiscuirá na orientação sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer ou direcionar o natural desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da ideologia de gênero. (Ante-projeto de lei estadual do “Escola Sem Partido” disponível em seu site)

A concepção de gênero do ESP parece seguir a orientação bem pragmática e, para não colocar de outra forma, pouco flexível, de que os papéis de gênero são determinados pelos fatores naturais do sexo biológico. Homens são homens. Mulheres são mulheres. Heterossexualidade é a única forma de sexualidade. Falar sobre gênero significa falar sobre sexo, que significa, seguindo um raciocínio que me custa entender, fazer sexo. Dentro da paranoia do ESP e de Nagib, o professor que discute gênero e sexualidade em sala de aula com seu filho não quer mostrar para suas alunas que elas podem ser mais que donas de casa, ou ensinar para seus alunos que eles não precisam reafirmar um ideal de masculinidade com agressividade e violência. Não. Esse professor quer fazer sexo com seu filho. É tudo parte do plano. Afinal, eles têm a prova. Generalizar um caso como o exemplo de um problema maior não é novidade para o ESP. Abuso sexual em sala de aula? Deve ser por causa dessas tais questões de gênero que meu filho tem que estudar porque está no currículo. Ah! E quem monta o currículo? Um ministério da educação comandado por um governo comunista doutrinador, que além de violar a mente também pretende violar os corpos de nossas crianças. Mas o ESP desvendou a charada. É o professor e a escola que faz o jovem fugir da padrão natural das coisas. Afinal, adolescentes e crianças não sentem desejo, não têm curiosidade sobre seus corpos, não nascem homossexuais ou trans. Isso eles aprendem contra a vontade. Fora do olhar vigilante e atento da família e do lar. Esse é o verdadeiro problema.

Mas o problema com certezas absolutas é que elas quebram frente a menor das dúvidas. Então basta ignorar o problema para ele desaparecer? Será que nós, sociedade civil organizada e “armada” com a teoria feminista, atenta para questões de gênero, não podemos fazer algo para que não hajam mais Valentinas? Ou é melhor deixar tudo nas mãos da família e do espaço privado? Bem, uma breve lida em alguns depoimentos mostram que os horrores do #primeiroassedio muitas vezes são vividos dentro desses espaços. É fácil apontar para a origem do problema como se ela fosse isolada e facilmente contida porque isso nos permite não nos preocuparmos mais. Ao menos para aqueles que não são mulheres de 12, 20, 30 ou 3 anos de idade.

Enfim, é notória a importância de organizações feministas nas conquistas de mais direitos das mulheres nos últimos anos, mas ainda mais por trazer ao público problemas que eram tidos como da esfera privada e que assim permitiam que milhares de mulheres sofressem caladas. Portanto, tratar de gênero, sexualidade e orientação sexual na escola é fundamental: para empoderar as próximas gerações de mulheres e torná-las mais capazes de se protegerem dos vários tipos de violências que uma mulher sofre ao longo da vida por ser mulher; educar os meninos a respeitarem e terem as mulheres como suas iguais, não como objetos sexuais, como eles aprendem em grande parte dos produtos culturais que eles consomem e em várias outras esferas de suas vidas; o (a) jovem discutir corpo, gênero e sexualidade o empodera e conscientiza sobre si mesmo (a) e o habilita a ter relações mais saudáveis, somente quando ele (a) quiser, ao longo de sua vida; no que se trata de jovens homossexuais e transgêneros, o (a) conscientiza sobre seus direitos e o (a) ajuda a compreender que ele (a) não é um “problema”, um (a) monstro (a), um (a) outsider – essa pessoa é como todos e todas nós e deve ser respeitada como tal.

Não há nada, absolutamente nada, na defesa da discussão sobre questões de gênero, orientação sexual e identidade de gênero que vise promover uma “deturpação da identidade” do (a) estudante, destruir a família (até porque não existe só um tipo de família, algo que obviamente este grupo de misóginos, homofóbicos e coisas piores não admite) ou qualquer coisa que o valha. Entender assim essa defesa que fazemos só mostra como a pessoa que enuncia tal opinião é intolerante, misógina, homofóbica e transfóbica: “estas pessoas estranhas não devem ser consideradas naturais”, “não se deve defender que mulheres são iguais aos homens”, é o que estas pessoas dizem por detrás de todo grito de “abaixo a ideologia de gênero”. Lembrem-se disto.

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