À Procura de um Novo Inimigo Invisível

Texto de Diogo Salles

Publicado originalmente aqui, em 9/08/2015

A lógica orwelliana do movimento Escola Sem Partido

No livro 1984 somos apresentados a um universo onde a vigilância e a suspeita são constantes na vida de todos. Essa observação perpétua se dá principalmente de maneira formal e institucionalizada. O governo que comanda o fictício continente da Oceania é dividido em vários ministérios responsáveis por regulamentar e controlar tudo que se vê e o que é visto. O Ministério da Verdade é responsável pela propaganda e marketing governamental (“O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO”), adulterando registros para apagar e reconstruir o passado a favor dos interesses do regime. O Ministério do Amor fica encarregado do recondicionamento ou punição de cidadãos considerados fora dos padrões comportamentais e psicológicos aceitáveis.

Mas, junto  dessa vigia ostensiva e oficial, há um outro tipo de olhar vigilante que assombra os personagens do livro. Em certo ponto da história, ficamos sabendo que o vizinho do protagonista é preso por causa de uma denúncia feita pela sua  filha pequena. Segundo a criança, o pai estava falando contra o regime enquanto dormia. O prisioneiro, numa mistura perturbadora de alegria e confusão, não poderia estar mais orgulhoso do desempenho da filha. Nem ele sabe ao certo se a sua falha de fato aconteceu ou não, mas como desconfiar da palavra de um membro tão dedicado ao regime a ponto de denunciar o próprio pai?

George Orwell, autor da obra, estava dialogando com um contexto político muito específico da sua época: a ascensão de regimes totalitaristas pela Europa e as formas assustadora que esses movimentos encontraram para se manterem no poder e garantir o controle sobre seus cidadãos. Mas mesmo depois de mais de meio século as ideias de Orwell não parecem ter perdido força. As disputas políticas de hoje podem até não ser as mesmas da época do lançamento do livro; ainda assim não é estranho que as ideias em 1984 se adaptem tão bem às grandes questões políticas do nosso presente.

Hoje, quando lemos Orwell narrando a alegria do pai sendo entregue aos leões, a realização a que chegamos é que os melhores carcereiros de nossas prisões individuais somos nós mesmos e aqueles mais próximos de nós. Isso não significa que a distopia totalitária para a qual o autor alerta esteja, literalmente, cada dia mais próxima. Porém, não é exagero considerar que muitas das preocupações pós-Segunda Guerra Mundial que Orwell expressava em suas ficções ainda possuem um tom terrivelmente atual. Só que o que vemos hoje não são as palavras do autor sendo tomadas ao pé da letra. Pelo contrário, parece que muito dos temores de Orwell parecem ter se concretizados. Não é difícil notar a difusão e a aceitação de mentalidades como aquelas que transformaram o mundo de 1984 numa distopia, num inferno social; essas ideias são aquelas que ditam que, enquanto ainda estivermos minimamente carentes de segurança, vigilância e com o status quo ameaçado, devemos fazer de tudo para construir as barreiras mais resistentes contra qualquer risco potencial ao nosso e tudo que nos é estranho.

As ilusões do discurso do Escola Sem Partido

Em uma entrevista de 2008 o advogado Miguel Nagib, fundador do movimento Escola Sem Partido, dá o seguinte depoimento:

Veja bem: as ideologias, sejam elas de esquerda, de direita ou de outro gênero, atrapalham a nossa compreensão da realidade. Uma só ideologia, porém, atrapalha mais do que duas ou três ou muitas. Quando o assunto é conhecimento, o pior dos mundos é o do monopólio ideológico.

Com outras palavras, todas as ideologias são insatisfatórias, mas, se você amplia o leque ideológico, a partir do choque entre as diversas perspectivas o estudante terá a oportunidade de formar uma visão mais abrangente da realidade.

Por isso, diante da dificuldade de eliminar totalmente a influência da ideologia sobre a nossa compreensão da realidade, é importantíssimo que as escolas promovam o pluralismo ideológico dos seus respectivos corpos docentes, palestrantes, etc.

O discurso do ESP se baseia em alguns fundamentos. Para essa análise, vale destacar dois. O primeiro é a oposição entre dois tipos diferentes de professores: de um lado, o “professor militante” que se aproveita de sua condição e faz propaganda político-ideológica para sua “audiência cativa” de alunos; do outro, o professor que instrui para a realidade, pautando sua conduta na neutralidade de sua prática. O segundo fundamento é a relação entre as diferentes formas de educar: a educação objetiva da escola, instrumental, voltada para o conteúdo dos currículos, etc; e a educação moral, responsabilidade da família. Quando esses dois fundamentos são colocados lado a lado, nos vemos diante de um paradoxo difícil de compreender.

A fala de Nagib parte da hipótese de que a solução para o problema da ideologia na educação escolar é transformar a sala de aula num espaço de pluralidade ideológica. Assim, os alunos teriam uma diversidade maior de referências a partir das quais eles poderiam construir uma visão mais objetiva da realidade. Deixando um pouco de lado o questionamento que poderia ser feito às definições de “ideologia” e “realidade” que Nagib tem para si, é preciso reconhecer que, a princípio, a sua argumentação parece ser bem aceitável. E é aí que talvez more o maior perigo do ESP e os vários movimentos derivados ou paralelos a ele: a facilidade muito grande de concordar com suas ideias. Isso porque os argumentos desses movimentos dependem de uma condição especial para funcionar. Como todo bom truque de mágica, você precisa estar olhando para a esquerda quando deveria estar olhando para a direita. Quando você cumpre com a condição o truque funciona e é incrível, mas ainda assim é só uma ilusão.

Tomando como exemplo alguns dos argumentos mais comuns do ESP e cia, é possível entender como essa ilusão é criada. Vamos supor que concordamos com a fala de Nagib e com as ideias de seu movimento para depois tentarmos esclarecer em que pontos elas não se sustentam. Começando com uma afirmação bem casual e sem nenhuma contradição aparente, que poderia ser feita por qualquer um pego desprevenido pelas acusações do advogado a certas condutas de professores: “De fato, um professor se aproveitando de sua posição de influência para impor aos seus alunos aquilo que devem acreditar é absurdo”; isso partindo do pressuposto de que qualquer aluno seja tão facilmente influenciável assim ou que o processo de ensino-aprendizado é unilateral e de cima para baixo; o fato de que o site do Escola Sem Partido tem um espaço voltado para que estudantes possam fazer denúncias contra “doutrinadores” já deve ser um bom indício de que esses poderes sobrenaturais que os docentes aparentam ter não são lá essas coisas. Mais um exemplo, dessa vez relacionado aos assuntos mais adequados para serem discutidos numa sala de aula: “Realmente, os professores deveriam se preocupar mais com os conteúdos do que com discussões sobre política que não levam a nada e não tem qualquer importância para as aulas”, mas por que a discussão política não pode fazer parte da aula como um conteúdo por si só?; não estamos falando aqui de propaganda partidária, porque o ESP trata as expressões incorretamente como sinônimos; a discussão política pode ser integrada ao currículo escolar de diversas matérias e ser incluída em avaliações como qualquer outro conteúdo; ela é essencial para  a “compreensão da realidade” de que Nagib tanto fala, uma vez que ela promove a construção de um saber mais completo, diversificado e sobretudo crítico. É curioso que a escola sem partido que Nagib quer criar parece ser completamente desgarrada da realidade que ele valoriza tanto. Nessa escola os alunos são seres autômatos esperando para fazer o download dos conteúdos direto para seus cérebros, sem filtragem ou questionamento, e os professores são agentes secretos de partidos políticos com cotas para inscrição de novos militantes que devem ser cumpridas de mês a mês. Muito mais do que alguns truques de retórica, talvez o maior problema com os posicionamentos do ESP e cia é que suas opiniões se baseiam numa ignorância enorme sobre o que é e como funcionam as relações de ensino-aprendizado.

Ainda assim, o maior paradoxo do pensamento do ESP diz respeito a uma contradição ainda maior. Associando os dois fundamentos do discurso de Nagib, os professores devem trazer para suas aulas uma pluralidade de perspectivas, mas ao mesmo tempo devem se comprometer a não ir ao encontro da educação moral dada pela família e pais dos estudantes. Ora, se é assim, então como propor uma educação plural se há um padrão a ser seguido e nunca subvertido, o padrão da educação moral e os valores familiares? Esse paraíso apolítico e apartidário é tão imparcial e incorruptível assim? Curiosamente, a escola que Nagib propõe remete muito ao mundo de 1984, onde os poucos que estão no poder podem escrever as regras que devem ser seguidas por todo o resto da sociedade (o que é permitido ler, escrever, falar…). Os demais que não tinham acesso aos privilégios da estrutura de poder são simplesmente enxotados para as margens, onde não precisam ser vistos nem incomodar ninguém. Não me parece que a família ou o modelo de educação que Nagib defende sejam assim tão neutros, já que eles estão sempre nivelados a partir do parâmetro do que está “estabelecido” ou “determinado” por essa tal realidade cuja definição não parece estar aberta para discussão. É muito conveniente para o ESP se apoiar no argumento fácil a favor da realidade quando é o próprio movimento e seus representantes que se presenteiam com o direito de definir o que é real e o que é ideológico, o que é certo e o que é errado, o que é normal e o que é anormal. Pois é sempre mais fácil deixar de lado aquilo que você não se entende e se agarrar no porto seguro do lugar comum. O projeto do ESP pode ser melhor entendido quando observamos não a quantidade de pessoas que ele atende e abraça, mas sim os grupos que ele exclui.

Aparentemente, a neutralidade que o ESP tanto demanda dos professores resolveria o problema. O professor deve ser capaz de encontrar o meio termo ideal entre as várias ideologias enganadoras, conduzindo os alunos para a descoberta da verdade. Aquele que vacila e foge do seu papel dentro de sala de aula tem que ser trazido à justiça por alunos e responsáveis. E como a maioria esmagadora das afirmações assertivas e confiantes de Nagib e seu movimento, todas são perfeitas, desde que não se pense muito sobre elas. A lógica do ESP transforma qualquer professor num potencial bicho-papão; um inimigo invisível que pode assumir a forma que você menos espera e que deve ser vigiado o tempo todo. Esses olhos vigilantes são os dos próprios alunos, atentos a tudo que possa ameaçar o status da objetividade de sua educação escolar. Não sei por que, mas parece que em algum momento alguém se confundiu lendo 1984, pensando se tratar de um projeto de utopia.

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