“Prof Watchlist”: docentes norte-americanos também são perseguidos em meio a polarização política

Renata Aquino

O site do movimento Escola Sem Partido diz em sua seção Sobre nós ter-se inspirado na iniciativa estadunidense NoIndoctrination.org, cujo site ainda pode ser visitado pelo Web Archive clicando aqui.

Os Estados Unidos estão em um momento de intensificação da polarização política devido às eleições presidenciais, onde os democratas foram representados por Hillary Clinton e os republicanos por Donald Trump. Neste contexto de fortalecimento de discursos em defesa e condenação de “pró” e “anti”-americanismo, a organização Turning Point USA criou um site chamado Prof Watchlist (em tradução livre seria algo como Lista de Vigilância de Professores). A Turning Point é uma organização de estudantes conservadores que objetiva articular politicamente jovens deste espectro político. O Prof Watchlist, em sua página inicial, se define como:

uma lista agregada de notícias pré-existentes que foram publicadas por uma variedade de organizações de notícias. Apesar de aceitarmos dicas de novas adições ao nosso site, nós somente publicamos perfis de incidentes que já foram reportados por uma fonte confiável [tradução livre]

Em seguida, o site afirma que não quer violar o direito à liberdade dos professores e professoras, mas que “estudantes e pais têm o direito de saber os nomes dos docentes que militam por agendas radicais” em sala de aula. Assim como o “escola sem partido” aqui no Brasil não define com clareza o que é “doutrinação ideológica”, também não há clareza de significado no termo “agendas radicais”.

exemplo

“Dr. Candis Bond é professora na Universidade St. Louis. Bond defende que ações sexistas e racistas nas ruas da América são invisíveis para aqueles “privilegiados”. Em uma seção de seu curso, estudantes são obrigados a “assoviar” e gritar coisas obscenas para pedestres. Dr. Bond também endossou a participação de alguns estudantes em manifestos pró-escolha. [tradução livre]”

FONTE

Enquanto alguns casos que o site relata foram cobertos por grandes jornais, em uma pesquisa superficial para verificar quais são as fontes mais utilizadas percebe-se a predominância de sites de notícias conservadores, também focados em denunciar professores. Algumas denúncias são claramente produto de discordância política, como esta aqui onde um professor criticou Donald Trump, enquanto outras misturam isto e desinformação sobre o assunto. Vejamos o exemplo acima. Candis Bond é professora da St. Louis University (Missouri), uma instituição privada jesuíta. A denúncia em questão refere-se ao seu curso “Politics of the street” (Política da rua), destinado a refletir sobre questões de gênero e de raça no espaço público urbano. O Watchlist diz que ela obrigou alunos a assoviarem para pessoas na rua, algo que não é citado na notícia usada como fonte (de um jornal cujo lema é “Original. Feito por estudantes. Sua dose diária de notícias e comentários por mentes de direita de toda a nação”, tradução livre). O Watchlist também cita que ela endossou estudantes que escolheram, em suas horas obrigatórias de prática relativas ao tema do curso, acompanhar manifestações pró-escolha. Ou seja, esta denúncia se baseia I – numa informação que não consta na fonte creditada, e II – discordância da posição política da professora em relação ao tema do aborto.

Pelo menos a princípio, a iniciativa tem sido levada pouco a sério. Alguns dias após o lançamento do projeto, uma campanha no twitter chamada “#trollprofwatchlist” mobilizou pessoas para denunciarem certos professores radicais no espaço do site “Submit a tip” (Envie uma dica). Que professores/as seriam estes? Indiana Jones, porque ele “negligencia sua tarefa de ensino para se engajar atividades anti-fascistas”; o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Gilderoy Lockhart, denunciado pela estudante Hermione Granger, por tentar “apagar a memória” de alguns amigos da aluna; o Dr. Jekyll, por ter um “lado obscuro”, dentre outras figuras icônicas da literatura, da TV e do cinema.

Como se vê nos jornais utilizados como fonte pelo Prof Watchlist, os Estados Unidos possuem uma tradição de vigilância e exposição do que docentes dizem em sala de aula. Uma análise rápida deste site e e de suas fontes jornalísticas evidenciam uma rede conservadora que busca expor professores progressistas. Por exemplo, um dos jornais mais utilizados como fonte, o Campus Reform, se descreve como “cão de guarda do sistema de educação superior da nação (…) expondo enviesamento e abuso nos campus acadêmicos”, e possui banners em seu site que dizem “Veja, poste no twitter, pare: #privilégioliberal”. Ele também explicita que é um projeto do Leadership Institute, cujo slogan é “Treinando conservadores ativistas, estudantes e líderes desde 1979”. A questão aqui é como esta lista pode ser um capítulo perigoso nesta história, já que o site é, na prática, um mural para expor professores, que se baseia não em questões éticas ou profissionais, mas em perseguição política claramente direcionada.

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